OPINIÃO: Outro estudo mostra que o principal vilão é o baixo rendimento dos brasileiros

Fonte: Blog Ponto de Ônibus

ônibus
Ônibus em Curitiba, onde a proporção de tempo de trabalho para pagar uma passagem é menor que de outras capitais. Mais um estudo mostra que um dos grandes vilões nos custos dos transportes não são apenas os valores das tarifas, mas os baixos rendimentos do trabalhador brasileiro. Foto: Adamo Bazani
Mais um estudo mostra que o grande problema não é o valor das tarifas em si, mas o baixo rendimento do brasileiro
Levantamento anterior também revelou que os salários no Brasil são baixos em comparação a outros países cujo valor total das passagens é maior
ADAMO BAZANI – CBN
Com informações Folha de S.Paulo
Mais um estudo comprova que o grande problema em relação aos custos do transporte nos ganhos do trabalhador não é apenas o valor das passagens, mas os baixos rendimentos no Brasil.
Desta vez, o estudo foi elaborado pelos economistas Samy Dana e Leonardo Lima, da Fundação Getúlio Vargas – FGV, e pelo graduando em economia, Victor Cândido, da Universidade Federal de Viçosa.
O levantamento leva em consideração a renda média do brasileiro em cada capital com base nos dados do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, de 2012, o mais recente.
Depois, após conversões na cotação atual pelo dólar, compara com o valor das tarifas e a renda salarial em outras capitais mundiais.
Os resultados são muito semelhantes a um estudo que levou em conta o salário-mínimo de 12 capitais no mundo e o valor das tarifas. Nas outras regiões do mundo, as tarifas são até mais altas que no Brasil, mas o peso nos rendimentos é bem menor porque os ganhos da classe trabalhadora são significativamente maiores.
O levantamento anterior pode ser conferido neste link:
A diferença é que neste estudo mais recente, os pesquisadores não levaram em consideração apenas o salário-mínimo, mas o rendimento médio. E em vez de calcularem o percentual sobre os salários, levaram em conta quantos minutos um trabalhador precisa para pagar a tarifa unitária.
Por exemplo, em São Paulo, o valor da passagem em dólares está em aproximadamente US$ 1,3. Em Londres, este valor é de US$ 4,4. Mas em São Paulo, o trabalhador precisa de 13,30 minutos para pagar a passagem enquanto em Londres, são necessários 11,30 minutos. Mas o rendimento médio do trabalhador em Londres é de US$ 2 mil mensais enquanto que em São Paulo é de apenas US$ 1 mil. Foi levado em consideração, para a comparação ser mais precisa, o padrão de 220 horas trabalhadas por mês.
BAIXA RENDA E AS DIFERENÇAS REGIONAIS:
O problema da baixa renda do Brasil é tão mais grave que o valor das tarifas pura e simplesmente que há diferenças entre cada capital no País.
Em Brasília, por exemplo, onde o salário do funcionalismo público influencia na média, são necessários apenas 6,50 minutos para pagar a tarifa de ônibus. Em Maceió, são necessários 15,5 minutos.
Vale ressaltar que as diferenças tarifárias entre as capitais são menores que as diferenças salariais.
CONFIRA A RELAÇÃO DE TEMPO NECESSÁRIO PARA PAGAR A TARIFA COM BASE NA RENDA DO TRABALHADOR (Principais Capitais Mundiais):
1) São Paulo: 13,30 minutos.
2) Rio de Janeiro: 13,20 minutos.
3) Londres: 11,30 minutos.
4) Lisboa: 10,00 minutos.
5) Santiago: 07,90 minutos.
6) Tóquio: 06,50 minutos.
7) Madri: 06,20 minutos.
8) Nova Iorque: 05,80 minutos.
9) Ottawa: 04,70 minutos.
10) Pequim: 04,50 minutos.
11) Paris: 04,50 minutos.
12) Buenos Aires: 02,60 minutos.
CONFIRA A RELAÇÃO DE TEMPO NECESSÁRIO PARA PAGAR A TARIFA DE ÔNIBUS COM BASE NA RENDA DO TRABALHADOR (Capitais Brasileiras):
1) Maceió (AL): 15,50 minutos.
2) Manaus (AM): 14,90 minutos.
3) Belo Horizonte (MG): 14,80 minutos.
4) Campo Grande (MS): 14,80 minutos.
5) Salvador (BA): 14,80 minutos.
6) Rio Branco (AC): 14,70 minutos.
7) Goiânia (GO): 14,70 minutos.
8) João Pessoa (PB): 14,60 minutos.
9) Boa Vista (RR): 14,20 minutos.
10) Aracaju (SE): 13,70 minutos.
11) Fortaleza (CE): 13,60 minutos.
12) São Paulo (SP): 13,30 minutos.
13) Rio de Janeiro (RJ): 13,20 minutos.
14) Natal (RN): 13,10 minutos.
15) Recife (PE): 13,10 minutos.
16) Teresina (PI): 13,00 minutos.
17) Cuiabá (MT): 13,00 minutos.
18) São Luís (MA): 13,00 minutos.
19) Porto Alegre (RS): 12,40 minutos.
20) Curitiba (PR): 12,40 minutos.
21) Porto Velho (RO): 11,80 minutos.
22) Belém (PA): 11,50 minutos.
23) Palmas (TO): 10,20 minutos.
24) Macapá (AP): 09,80 minutos.
25) Vitória (ES): 09,80 minutos.
26) Florianópolis (SC): 09,80 minutos.
27) Brasília (DF): 06,50 minutos.
ÓBVIOS:
É claro que algumas questões óbvias não devem ser deixadas de lado.
A primeira delas é que ninguém está falando que no Brasil o transporte é barato. População que sente na pele, gestores públicos, estudiosos, imprensa e empresários sabem disso.
Outra é que a qualidade do transporte no Brasil ainda está aquém dos serviços oferecidos em diversas capitais mundiais e na relação custo/benefício, as passagens nas cidades brasileiras são caras.
Além disso, é importante destacar que, mesmo em valores absolutos algumas tarifas no mundo sendo mais caras, não pesam também tanto no bolso do trabalhador porque em boa parte da Europa e mesmo das Américas, o transporte público é subsidiado pelo Estado. Ninguém se espanta, diferentemente no Brasil, em saber que as tarifas são pagas em até 50% com recursos de impostos. No Brasil, quando há subsídio, é em média de 15% do valor da passagem e mais precisamente para bancar gratuidades ou algumas integrações e não para baixar o valor das tarifas.
Nestes países, onde o trabalhador precisa de menos tempo para pagar as tarifas, o retorno financeiro das empresas transportadoras, sejam públicas ou privadas, varia entre 5% e 15%. Ou seja, não é o lucro da viação o grande problema.
Para que o trabalhador ganhe mais, é necessário fazer a economia crescer. Para isso, estimular o setor produtivo é fundamental, com desonerações inteligentes também. Políticas sociais são importantes, mas como medidas emergenciais, não como ações permanentes que mais rendem votos e popularidade que uma base sólida para crescimento.
Outro ponto: ninguém está tirando a legitimidade de o brasileiro reivindicar tarifas menores. Realmente os valores são altos para a renda e pela qualidade dos serviços. Mas não está na hora de as reivindicações serem mais maduras e mais abrangentes? Deixar de focar nos centavos das passagens e reivindicar uma renda mais digna para o brasileiro que o garanta a oportunidade de se deslocar sem ter os ganhos reduzidos de forma significativa?
Adamo Bazani, jornalista da Rádio CBN, especializado em transportes
Com dados de Folha de S.Paulo